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Ele desceu do ônibus com ombros contraídos. A testa levemente franzida e o olhar concentrado nos próprios pés.
Andava para lugar nenhum. As garotas olhavam curiosas para o rapaz de maxilar marcado e não havia uma pessoa que não imaginasse o que se passava por aquela cabeça.
Ela, como sempre, levava um sorriso tímido no rosto. Vestido de cor pálida e um caminhar leve. Somente os bons observadores percebiam o pingo de frustração em seus lindos olhos azuis.
Aquela figura densa e ansiosa prendeu a atenção da garota. Não como aos outros.Não. Pouco lhe importavam os belos traços, o corpo robusto e o ar misterioso. Foi como um tapa inesperado, que a deixou perplexa e sem fala. Jamais vira tanta vida em uma pessoa. Foi algo estranho... como se tivesse encontrado a si mesma.
Quando se deu conta estava a segui-lo. Entraram no correio e ele tirou uma carta da mochila que não parecia cheia. Uma mochila vazia, e um homem que parecia carregar o mundo nas costas.
Ela não sabia para onde ir. Foi ate lá apenas para sair de casa, e sentiu-se envergonhada quando percebeu o que acabara de fazer. Nunca teve o hábito de perseguir pessoas, e, mesmo que o tivesse, o seu desejo de invisibilidade não permitiria qualquer aproximação.
Comprou um envelope qualquer para não sair de mãos vazias e se dispôs a fazer o inusitado (em seu mundo): aproximou-se dele e perguntou o horário.
Passava do meio dia, e Ele logo tornou a olhar para os próprios pés e caminhar.
Um turbilhão invadiu o seu corpo. Somente ela sabia as forças que juntara e o esforço que fizera para dirigir uma palavra qualquer ao rapaz. E ele caminhava como se aquele instante não tivesse existido, e nada houvesse atrapalhado seu pensamento.
Os passos leves teriam caminhado em direção contrária, não fosse a força que a sugava para junto dele.
O homem parou por alguns instantes. Olhou o relógio (ato que confirmou a insignificância que ela anteriormente sentiu) e mudou de direção.
Entraram em um café, com mesas pequenas e redondas... quase todas cheias.
Chegou o momento de fazer-se notar. Buscou coragem sabe-se lá onde e com voz trêmula perguntou se ele não era fulano qualquer.
Ele, pela primeira vez, pareceu descer ao mundo. Respondeu que não,e,para a surpresa da moça, prolongou a conversa.
Sentaram na mesma mesa. Ele falava, não olhava nos olhos, apenas falava. Ela prestava atenção a cada detalhe e não se atrevia a interromper.
Falou sobre a sua dificuldade em lagar o cigarro, e como o café estava diretamente ligado ao vício. Comentou sobre a mudança de temperatura, a música que tocava e o jeito engraçado do moço atrás do balcão.
Tinha os ouvidos voltados para si mesmo. Cada palavra pronunciada por Ela ativava uma área de sua memória, e ele punha-se a falar.
Ele foi embora. Escreveu uns números em um pedaço de papel , e deixou na frente dela.
Ela, estática, olhou os números sobre a mesa e recordou brevemente o acontecido. Angustiou-se. Ele não disse como se chamava, e não se importou em perguntá-la.
Ficou ali por mais alguns minutos. Enxergou uma muralha. Levantou-se, amassou o papel entre os dedos e o jogou dentro da bolsa.
Ela não ligaria.
Continuou com seus passos leves e desejou não ter saído de casa naquele dia. Tinha novas dúvidas sobre si mesma.
Segundos depois subiu no ônibus um homem de ombros relaxados e expressão calma. Desejou ter ficado mais tempo no café...
[...abre porta, abre...]