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Ela tomou uma xícara de café com leite, não muito quente, não muito frio. Morno, que é para não afetar o paladar.
Desligou a tv e foi para o quarto. Não se atreveu a pegar o livro no criado mudo, pois não conseguiria ler mais do que uma página.
A cama estava confortável, mais leve do que nunca. Talvez pela certeza de que ele não chegaria, não hoje.
Ele era um homem de voz doce, mãos pesadas e respiração silenciosa.
Ela sempre admirou a força que ele fazia para protegê-la. O jeito que fingia conhecê-la mais do que, de fato, conhecia.
Vivia atento a qualquer detalhe. Sabia exatamente o que a agradava e o que a irritava. E era com cautela que fazia uso de tais conhecimentos. Não queria deixar transparecer tanta devoção.
Era paciente como poucos. Engolia mil palavras se fosse preciso, mesmo que seus olhos transparecessem todas elas.
Sempre foi extremamente racional. E ao se encontrar apaixonado, fez Dela a sua razão. Calculava, minuciosamente, suas ações. Sofria, solitário, por suas falhas. Sempre tendo o cuidado de ser discreto.
Era tão fácil com as garotas de antes. Inventava sentimentos e fazia um esforço mínimo para dizer algumas palavras bonitas, sabendo que aquilo bastava.
Com Ela não. Tinha tudo aquilo martelando dentro de si. Não cabia mais, queria falar como nunca havia feito, agir de maneira impulsiva e excessiva.
Mas controlava-se. Sempre achou que demonstração em excesso era inimiga de qualquer relacionamento.
Passava horas observando-a dormir. Adorava. Dormia mais perto só para sentir seu cheiro, não enjoava nunca.
O ontem servia para planejar o hoje. E o hoje para planejar o amanhã (com ela).
Agora ele sabia o que 'todos' sentiam. Aquela felicidade agoniante. Um 'querer para sempre', acompanhado pelo medo de perder.
Nessa noite ela sentiu-se culpada.
Mais uma vez, feriu e desiludiu. Mais uma vez, foi egoísta.
A busca incessante por uma vida compartilhada. O medo da solidão.
Ignorou o coração, e resolveu tentar. De repente era assim com todos, ela que queria demais.
Se ao menos ele tivesse sido um pouco menos transparente...
Ou talvez ela que seja muito perceptiva....
Deu um ultimo olhar para o teto, e repetiu para si mesma:
- O próximo será platônico. E menos perfeito... e menos perfeito.